sexta-feira, 30 de março de 2007

Truques de linguagem e o medo global

O Eduardo Galiano escreveu um texto que retrata bem o mundo em que vivemos e que passo a reproduzir:

Truques de linguagem

  • Na era vitoriana, as calças não podiam ser mencionadas na presença de uma senhorita.

Hoje, não fica bem dizer certas coisas na presença da opinião pública. O capitalismo ostenta o nome artístico de economia de mercado, o imperialismo chama-se globalização.

  • As vítimas do imperialismo chamam-se países em vias de desenvolvimento, o que é como chamar de crianças aos anões.
  • O oportunismo chama-se pragmatismo, a traição chama-se realismo.
  • Os pobres chamam-se carentes, ou carenciados, ou pessoas de escassos recursos.
  • A expulsão das crianças pobres do sistema educativo é conhecida sob o nome de deserção escolar.
  • O direito do patrão a despedir o operário sem indemnização nem explicação chama-se flexibilização do mercado laboral.
  • A linguagem oficial reconhece os direitos das mulheres entre os direitos das minorias, como se a metade masculina da humanidade fosse a maioria.
  • Ao invés de ditadura militar, diz-se processo.
  • As torturas chamam-se pressões ilegais, ou também pressões físicas e psicológicas.
  • Quando os ladrões são de boa família, não são ladrões e sim cleptómanos.
  • O saqueio dos fundos públicos pelos políticos corruptos responde pelo nome de enriquecimento ilícito.
  • Chamam-se acidentes os crimes cometidos pelos automóveis.
  • Para dizer cegos, diz-se não visuais, um negro é um homem de cor.
  • Onde se diz longa e penosa enfermidade deve-se ler cancro ou SIDA.
  • Doença repentina significa enfarte, nunca se diz morte e sim desaparecimento físico.
  • Tão pouco são mortos os seres humanos aniquilados nas operações militares.
  • Os mortos em batalha são baixas, e as de civis que a acompanham são danos colaterais.
  • Em 1995, aquando das explosões nucleares da França no Pacífico Sul, o embaixador francês na Nova Zelândia declarou: "Não me agrada essa palavra bomba, não são bombas. São artefactos que explodem".
  • Chamam-se "Conviver" alguns dos bandos que assassinam pessoas na Colômbia, à sombra da protecção militar.
  • Dignidade era o nome de um dos campos de concentração da ditadura chilena e Liberdade a maior prisão da ditadura uruguaia.
  • Chama-se Paz e Justiça o grupo paramilitar que, em 1997, metralhou pelas costas quarenta e cinco camponeses, quase todos mulheres e crianças, no momento em que rezavam numa igreja da aldeia de Acteal, em Chiapas.

O medo global

  • Os que trabalham têm medo de perder o trabalho.
  • Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho.
  • Quem não tem medo da fome, tem medo da comida.
  • Os automobilistas têm medo de caminhar e os peões têm medo de ser atropelados.
  • A democracia tem medo de recordar e a linguagem tem medo de dizer.
  • Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas.

É o tempo do medo.

  • Medo da mulher à violência do homem e medo do homem à mulher sem medo.

4 comentários:

Teixeira disse...

Excelente post, Flyover.

Dos melhores que aqui vi e olha que tem sido muitos.



Ps: o teu site está com pop-ups da Bravenet. É chato. E o site advisor dá cor cinzenta. Pessoalmente, nunca gostei da malta da Bravenet.


Abraço

[[]]

Flyover disse...

ok thanks pela dica
já há algum tempo que tava naquela de tirar esta cena do bravenet.


um abraço

Anónimo disse...

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